Fé e Vida

A tua palavra é lâmpada para os meus pés, luz para o meu caminho

“Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade”. E acrescenta: “Em virtude desta revelação, Deus invisível, na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos e convive com eles, para convidá-los e admiti-los à comunhão com Ele” (Dei Verbum, nº 2).

Para se expressar, os homens têm a língua falada à sua disposição, mas também podem se comunicar com a palavra escrita, com um gesto, com um ato. Deus tem uma imaginação infinita em dialogar com sua criatura e em transmitir-lhe seu amor e vida. Ele faz isso através do Filho, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que é a sua Palavra.

As diferentes maneiras pelas quais a Palavra de Deus se manifesta revelam a ação de Deus, que se dá a conhecer aos nossos olhos ao colocar à nossa disposição a infinita beleza do universo e ao mantê-lo vivo através do relato da história da salvação presente na Bíblia.

Deus nos criou a sua imagem e semelhança para que fôssemos felizes e eternos. Colocou em nós o seu Espírito. Para nos dar vida comunicou uma centelha da vida divina, uma vida de amor infinito.

O supremo ato de amor nos foi expresso pela encarnação de Jesus, seu unigênito, que revelou a plenitude da vida de amor da Santíssima Trindade.

Mas como Deus deu aos homens a oportunidade de se comunicar também com a palavra vocal, ele mesmo falou usando a mediação dos seres humanos. Os profetas, inspirados pelo Espírito Santo, falaram expressando, com sua própria capacidade limitada, características e conhecimento histórico-temporal, o conteúdo do que Deus queria nos dizer.

A história da humanidade também é um instrumento que Deus usa para se comunicar. A própria vida de um povo, o povo escolhido, cuja história é uma expressão do amor com o qual Deus acompanha nossos passos, torna-se uma mensagem de salvação e uma expressão da vontade do Criador em sua criatura.

Deus continua a falar com a vida de Jesus e hoje com a vida da Igreja. Continua a compartilhar sua vida conosco, assumindo um corpo, nossa história, nossa linguagem.

A humanidade sempre tentou perpetuar sua palavra escrevendo-a. O Espírito Santo acompanhou a revelação de Deus para que sua comunicação fosse escrita e pudesse ser transmitida mais facilmente através dos tempos. Não apenas recebemos um livro, mas um grande número de livros, podemos dizer uma biblioteca inteira ("bíblia"), chamada "Livros Sagrados" ou "Escrituras Sagradas", escritas por homens, sob a inspiração do Espírito Santo. Portanto, podemos afirmar que a Bíblia é escrita por Deus e pelos homens: por Deus em seu conteúdo, por homens em sua forma. A Bíblia foi escrita por pessoas que usavam seus talentos: mente, boca, inteligência e conhecimento. Eles disponibilizaram suas habilidades, mas o conteúdo foi inspirado por Deus, por seu amor e para a nossa salvação.

Através de suas Sagradas Escrituras, Deus fala hoje pessoalmente a toda pessoa que lê e ouve. A aplicação da Palavra de Deus à nossa vida concreta é uma obra que o Espírito realiza por meio do ensino, da orientação da Igreja e de nossa humilde disposição de dialogar com o próprio Deus.

Muitos são os símbolos com os quais a Palavra de Deus se define na Bíblia: uma lâmpada em um caminho escuro, a chuva caindo do céu em solo seco, uma espada que penetra na carne, uma semente que o semeador espalha generosamente.

No Salmo 119, a vida do homem é como uma peregrinação em um caminho envolto em trevas, mas ao longo do caminho brilha uma luz: “A tua palavra é uma lâmpada para os meus passos, luz para o meu caminho" (Sl 119,105).

Aproveitemos a graça do mês de setembro para estabelecer um contato mais intenso e até íntimo com a Palavra de Deus. Procuremos dar-lhe um lugar de destaque em nossas casas e vida, tirar alguns minutos do dia para ler algum texto bíblico e ouvir do próprio Deus o que Ele preparou para nós. Acima de tudo coloquemos em prática o que a Palavra de Deus nos propõe.

“Quando eu encontrava as tuas palavras, eu as devorava. Elas se tornaram a minha alegria e a felicidade do meu coração, porque teu nome era invocado sobre mim, Senhor, Deus dos exércitos (Jr 15,16).”

 

Dom João Carlos Seneme, css

Bispo de Toledo